Andamos assim tão distraídos?

Sentada na praia, já ao final do dia, observo um casal com uma menina com cerca de 5 anos, os três à beira mar. A menina pede atenção e começa a fazer birra. O homem (que não me parecia ser seu pai) começa a gozar com ela e fingir que faz birra também. Atira-lhe água, corre atrás dela e “pendura-se” também no braço da mãe a imitá-la. A mãe pega nela ao colo e eu sinto alívio.

No mar entram um pai e uma menina com cerca de 12 anos. Ela mergulha. Ele não. A água está gelada. Ela atira-lhe água para brincar e ele diz-lhe em voz bem alta “Podes parar com essa merda? Porque é que tens que ser sempre tão chata!?”. A menina em voz mais baixa ainda responde “Pai, não tens que me dizer isso!” mas ele discorda “tenho que dizer sim! Estás a ser chata!” Sinto o coração apertado! Tenho vontade de gritar “Não acredites nisso!!! Não és chata! És uma menina espetacular!!” Mas não grito. E passado um tempo, depois do mergulho do pai, já brincam e conversam os dois.

Mais à frente uma mãe grita com o filho com cerca de 10 anos. Aponta o dedo para o chão perto dos seus pés e ordena-lhe “Quero-te aqui! Agora!! Agora!!! Agora, estás a ouvir??!!!” e ele lá vai.

E quantas crianças há por aí a serem sacos de boxe das emoções dos adultos?

Andamos assim tão distraídos?

Vem-me à cabeça uma frase que o meu companheiro me costuma dizer “até para nascer é preciso ter sorte!”

O que se passa com os adultos? Não sabem que a informação entra nas crianças, diretamente para o seu subconsciente sem qualquer filtro? Que tudo o que lá metemos fica? Que têm que lidar com as suas frustrações, os seus egos, as suas emoções de outra forma… que têm que trabalhar neles próprios em vez de descarregar nos outros? Muito menos nas crianças.

A sério que andamos assim tão distraídos que não damos conta dos danos que podemos causar? Ao ponto de não ver que birras, disparates e caras tristes são um sinal? Fazem parte, claro que fazem, são crianças a crescer. Mas são um sinal. E nós, como adultos temos a obrigação de saber mais. De fazer melhor!

Não, não sou uma mãe perfeita. Já gritei várias vezes com os meus filhos (apesar de não me lembrar já da última vez que isso aconteceu), confesso que até já dei palmadas (mas jurei nunca mais o fazer, estou a tentar cumprir essa jura), e não me parece que tenha que lhes pagar psicólogo por causa disso. Também não sou o tipo de mãe de não ralhar e de não criar regras e achar que tudo pode ofender os seus sentimentos. Às vezes eu própria tenho dificuldade em lidar com as minhas emoções. Mas todos os dias tento tornar-me melhor mãe!

Devemos ter consciência de que tudo o que fazemos com as crianças tem impacto no seu crescimento. Como cuidadores temos a responsabilidade de lhes dar o melhor de nós, para também eles se tornarem o melhor deles próprios. Pelo menos eu sinto que devo isso aos meus. Devo isso ao mundo.

O meu objetivo com este texto não é criticar nenhum pai ou mãe ou cuidador. Eu sei que muitas vezes estão a dar o seu melhor. Que muitas vezes também estão cansados, esgotados, tristes, confusos… Mas sabem que mais… os miúdos não têm culpa.

Penso muitas vezes que temos que começar a ter uma maior consciência sobre a educação. Que crianças queremos criar para o mundo? Acredito que todos (todos mesmo) somos cuidadores e responsáveis! Todos devemos olhar pelas crianças com quem temos contato. Todos devemos dar o exemplo.

Vamos então trabalhar na nossa inteligência emocional. Fortalecendo a nossa auto-estima e a deles também! Começarmos por sentirmo-nos bem connosco próprios e ensiná-los a sentirem-se bem também com quem são. Porque a verdade é que todos somos mesmo especiais.

 

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